Pesquisa Tese de doutorado
O nome de tudo
Dante, Camões, Drummond e a Máquina do Universo
A tese lê os episódios da Máquina do Mundo em Dante, Camões e Drummond como alegorias poético-científicas do entendimento do mundo e desenvolve, a partir da passagem do Mundo ao Universo, a proposta de um realismo assintótico.
As palavras sublinhadas têm notas. Toque numa delas para ler.
Há uma cena que a poesia repetiu ao longo de seis séculos. A um homem é dado ver o universo inteiro, montado como um engenho e exposto de uma só vez, e cabe a ele, e ao poema, dizer o que viu. No último canto da Comédia, Dante vê reunido num único volume (nota) o que se espalha pelo universo. No canto X de Os Lusíadas, Tétis leva o Gama ao alto de um monte e lhe mostra a máquina do mundo (nota) reduzida a um globo. Quando a cena volta, em 1949, num poema de Drummond, a máquina se abre diante de um homem que caminha por uma estrada de Minas (nota), e ele a recusa.
Nel suo profondo vidi che s’interna, / legato con amore in un volume, / ciò che per l’universo si squaderna. (Paraíso, XXXIII, 85–87)
máquina do mundo (voltar ao texto)
“Vês aqui a grande máquina do Mundo” (Os Lusíadas, X, 80).
estrada de Minas (voltar ao texto)
“A Máquina do Mundo”, de 1949, recolhido em Claro Enigma (1951).
O arco parte I
Lidas em sequência, as três cenas descem. Dante recebe a revelação além do último céu, ao fim de uma subida que começou na cratera do Inferno, Camões a situa no alto de um monte, numa ilha que a deusa fez surgir no mar, e Drummond, como o leio, a faz descer ao Buraco do Cauê (nota), a montanha de ferro de Itabira que a mineração foi comendo ao longo do século XX até deixá-la invertida. O que cada um faz com a visão desce junto, e entre Dante, que não consegue retê-la nem dizê-la, e o caminhante de Drummond, que poderia colhê-la e segue viagem, fica o Gama, que a recebe como lição e deixa à margem do globo o que lhe escapa. Da primeira cena à última morre a confiança de que o todo se deixa ver, e a segunda parte pergunta o que pode ser uma máquina do mundo depois dessa morte.
Buraco do Cauê (voltar ao texto)
“A Máquina no Buraco”, Luso-Brazilian Review, no prelo.
“O sino revirado”, Poema Aberto, Porto, 2024.
Do Mundo ao Universo parte II
O nome que a tradição deu ao todo nasceu num verso de Lucrécio que lhe anunciava a ruína, num poema empenhado em provar que nenhum deus fez o mundo para nós, e ainda assim Copérnico, ao dedicar o livro que tirou a Terra do centro, fala da máquina do mundo construída para nós pelo melhor dos artífices. Ser o todo feito à medida de quem o olha foi a promessa guardada nesse pronome. A cosmologia de hoje descreve, com uma eficácia que nenhuma época teve, um universo (nota) em expansão, feito sobretudo do que não se vê, e tornou indiferente o lugar de quem o observa. Se mundo prometia uma casa, universo nomeia um todo em que nem a razão nem a imaginação encontram onde morar, e cresce a distância entre o saber, arquivo que nenhuma vida percorre inteiro, e o entendimento, o que um sujeito finito chega a apreender e a habitar. Nessa distância as figuras rareiam, e a escassez que daí resulta convive com o desejo de ver o todo e com as imagens com que a própria ciência a supre, de modo local e provisório. A pergunta herdada muda então de forma e passa a ser a de saber que figura cabe à totalidade diante de um entendimento que se sabe finito.
Em Noemáfagos, “Vazante” e “A cifra”.
After the Machine of the World, Ratio Ethica, 2026.
Uma figura mínima parte II
No lugar das máquinas antigas proponho uma figura mínima, dois eixos e uma curva que se aproxima deles sem jamais tocá-los. Que um eixo figure o conhecimento objetivo e o outro a inquirição subjetiva é uma estipulação, que nada na matemática exige, e o que a figura oferece é uma orientação, a de uma fronteira que recua à medida que nos aproximamos dela e guia o saber sem se deixar possuir. A figura pode se realizar com tanta intensidade que passa a expor o excesso do que pretendia conter, e esse transbordamento tem forma geométrica na trombeta de Gabriel (nota), que guarda um volume finito dentro de uma superfície infinita. Na origem dos eixos, onde o saber do mundo e o saber de si coincidiriam, fica uma singularidade epistêmica que só se conhece pelos seus efeitos, e o nome lançado contra ela volta torcido sobre si, numa onomástrofe que a própria palavra universo já pratica, ao se incluir no todo que nomeia. Quando o contorno desse limite passa a valer como conteúdo, o discurso fabrica um noemáfago, nome que circula como evidência e encerra a cadeia dos porquês.
trombeta de Gabriel (voltar ao texto)
Sólido estudado por Torricelli no século XVII. A tinta que o enche nunca bastaria para pintar a sua superfície.
Em Noemáfagos, “Interior com figura ao fundo”.
Habitar a borda parte III, em redação
Dessa figura decorre uma posição, que o capítulo final, ainda em redação, chama realismo assintótico (nota) e que reconhece a assimetria das posições diante de regimes locais de verificação e a simetria dos sujeitos diante da incompletude da totalidade. O erro reconhecido continua reconhecido, e o modelo de Ptolomeu, que Camões ainda entregava ao Gama em 1572, não volta a valer pelo fato de os seus sucessores também serem falíveis, do mesmo modo que nenhum deles ocupa o lugar do todo. A tradição dá a essa posição um emblema no gesto do caminhante de Drummond, que baixa os olhos diante da totalidade oferecida inteira e segue pela estrada, gesto que só chega até nós porque foi feito verso. Os poemas de Noemáfagos, escritos em par com a tese, respondem ao mesmo limite com formas, e vinte e um deles compõem a obra digital publicada em noemafagos.com, onde cada poema pede ao leitor um gesto.
realismo assintótico (voltar ao texto)
Em Noemáfagos, “Esta errata cancela as anteriores. / As próximas já se encontram no prelo.” (“Errata”)
Fios máquina do mundo · escassez alegórica · alegoria técnica · horizonte assintótico · transbordamento · singularidade epistêmica · onomástrofe · noemáfago · realismo assintótico