Os fios são os conceitos que a tese e os poemas partilham. Nem todos têm a mesma natureza, e por isso vêm separados em quatro níveis, de um motivo que a poesia herdou de seis séculos a uma posição sobre o que se pode conhecer. Cada verbete indica onde ler sobre o fio e com que outros fios ele se cruza.
Motivo histórico-literário
Uma cena ou figura que a tradição repete e transforma.
máquina do mundo
machine of the world
Modelo do cosmos como engenho montado e inteligível, e alegoria cosmopoética desse modelo. O nome, machina mundi, vem de Lucrécio, e a ideia do mundo como obra de um artífice, do Timeu de Platão. A astronomia de Ptolomeu forneceu o edifício de esferas concêntricas em torno da Terra, que os manuais, de Sacrobosco a Pedro Nunes, ensinaram com esse nome. Na poesia, de Dante a Camões e a Drummond, é a cena em que esse modelo se oferece ao entendimento de um homem.
Função Organiza a parte I da tese, que compara as três cenas, e volta na parte II como Máquina do Universo, nome que a tese propõe para a figura que a totalidade pode ter hoje.
Um estado de coisas que a pesquisa descreve e nomeia.
escassez alegórica
allegorical scarcity
Dificuldade contemporânea de forjar figuras que medeiem a velha ambição de tornar o todo inteligível, agora que se reconhece que toda representação da totalidade permanece estruturalmente incompleta. Nascida da passagem do mundo ao universo, a escassez convive com a persistência do desejo de totalidade e com as alegorias técnicas, as mediações com que a ciência torna imagináveis partes do universo sem oferecer uma imagem comum do todo.
Função Diagnóstico com que a tese abre a sua parte propositiva. Dá título a comunicações de 2025 e 2026.
Regime de mediações figurais com que a ciência torna imagináveis e comunicáveis modelos cuja estrutura formal excede a intuição sensível. É heurística por constituição, e toda a sua eficácia está no acesso que abre. A tese a chama de forma que a escassez alegórica assume do lado da ciência, mediação local que ainda funciona, no extremo oposto ao do noemáfago.
Função Desenvolvida na parte propositiva da tese, dá título à comunicação apresentada no 7º CIELLI.
teia cósmica
linha do tempo do universo
partícula como bolinha
Três imagens de ampla circulação que a comunicação do CIELLI lê como alegorias técnicas, em desenho esquemático.
Os cinco operadores da parte II da tese, na ordem em que ela os apresenta, cada um com uma função própria.
A figura mínima de que parte o horizonte assintótico, dois eixos e uma curva que se aproxima deles sem tocá-los. Na origem, onde os eixos se cruzam e de que a curva se afasta a cada aproximação, fica a singularidade epistêmica. No quadrante oposto, o segundo ramo da mesma curva figura a sua sombra.
horizonte assintótico
asymptotic horizon
Imagem-conceito que a tese propõe como nova alegoria da Máquina do Mundo. Parte de uma figura mínima, a hipérbole que se aproxima, sem tocá-los, de dois eixos, o do conhecimento objetivo e o da inquirição subjetiva. Nomeia uma forma de orientação, a de uma fronteira que se afasta à medida que dela nos aproximamos e que guia o saber sem se deixar converter em posse.
Função Entre os cinco operadores, é a figura, a alegoria de que os outros derivam.
Evento em que uma figura se realiza com tal intensidade que passa a expor o excesso do objeto que pretendia conter. A figura só continua a funcionar ao admitir que já não cabe no regime de representação que a gerou, e é isso que permite à Máquina abrir-se sem se romper. A tese lhe dá forma geométrica na trombeta de Gabriel, sólido de volume finito e superfície infinita.
Função Entre os cinco operadores, é o evento. Na cena da Máquina do Mundo, é o que da visão sobrevive quando ela passa.
Condição-limite do saber, o ponto em que o conhecimento encontra aquilo que o torna possível sem poder convertê-lo em objeto. Na figura do horizonte, é a origem onde os eixos se cruzam e onde o saber do mundo e o saber de si coincidiriam, lugar inocupável, que só se conhece por seus efeitos e não tem um fora de onde ser visto. Se a singularidade física impede a observação, a epistêmica impede a referência.
Função Entre os cinco operadores, é o vértice. Nomeá-la é circunscrever uma borda, e tomá-la por conteúdo já produz um noemáfago.
Movimento pelo qual o nome, lançado contra o limite do saber, retorna torcido sobre si e se deposita como contorno. O conceito perde sua direção referencial e passa a orbitar a própria impossibilidade de referir. A tese encontra essa dobra já no nome universo, que se inclui no todo que nomeia, e a reconhece sempre que uma totalização tenta incluir a si mesma entre seus objetos.
Função Entre os cinco operadores, é o movimento, o que a linguagem faz diante da singularidade epistêmica, entre o limite e a figura que o discurso põe em seu lugar.
Figura que o discurso fabrica no lugar de um referente impossível, quando o contorno de um limite passa a valer como conteúdo. Tem forma de substantivo e devora a condição pela qual algo poderia aparecer como sentido. A singularidade epistêmica é o mesmo limite enquanto a figura que o nomeia se mantém confessadamente figura; o noemáfago começa quando ela passa a circular como evidência, como causa que encerra a cadeia dos porquês.
Função Entre os cinco operadores, é a figura resultante. Dá título a Noemáfagos, obra de poesia digital e livro em preparação, e permite à tese reler as três cenas da Máquina do Mundo como maneiras de deter-se à sua beira.
Uma posição sobre o que se pode conhecer e sobre como se sustentar diante do limite.
realismo assintótico
asymptotic realism
Posição epistemológica e ética que decorre de habitar o horizonte assintótico. Reconhece a assimetria das posições diante de regimes locais de verificação e a simetria dos sujeitos diante da incompletude da totalidade. A verdade como totalidade permanece inacessível, enquanto o erro se deixa reconhecer localmente, e o falseado permanece falseado. Dogmatismo e relativismo cometem o mesmo erro de figura, tomam o limite por um lugar, e o realismo assintótico guarda a direção sem prometer o termo.
Função Assunto da parte III da tese, “Por um novo Humanismo”, ainda em redação, onde se desdobra em quatro máximas regulativas, não reificar o limite, sustentar a tensão entre os eixos, agir sob critérios sem garantia e responder ao limite com poiesis.