Ir para o conteúdo

Pesquisa

Como dar a ver, a um entendimento finito, o universo que a ciência do nosso tempo consegue descrever? A pergunta tem seis séculos de poesia atrás de si e organiza o que faço, entre a literatura comparada e a história e a filosofia da ciência.

A cosmologia do nosso tempo calcula a idade do universo com uma margem de erro menor do que um por cento e sabe que quase tudo o que existe não emite luz, e no entanto nenhum dos seus diagramas oferece uma imagem desse todo que caiba na cabeça de quem lê. A teia cósmica das simulações e a partícula desenhada como uma bolinha funcionam dentro de cada ciência como atalhos e, fora dela, circulam como se fossem retratos. Entre um saber que não para de crescer e um entendimento que não cresce na mesma medida abre-se o intervalo de que esta pesquisa se ocupa.

Durante séculos a poesia teve uma cena para esse intervalo, a de um homem a quem o universo inteiro se mostra de uma só vez, montado como um engenho, e que precisa dizer o que viu. Dante a põe acima de todos os céus, Camões no cume de um monte, Drummond numa estrada de Minas ao fim da tarde, onde a máquina se abre diante de alguém que já não a quer. Leio essas cenas desde 2014, e o que elas mostram, lidas em sequência, é que o lugar de onde o todo se deixa ver desce de uma para a outra, e que essa descida mede a confiança de cada época na possibilidade de vê-lo. Depois da recusa de Drummond, a pergunta herdada muda de forma e passa a ser a de saber que figura pode ter a totalidade para um entendimento que se sabe finito.

Leio as cenas com a ciência que as ergueu, de Ptolomeu ao tratado da esfera de Pedro Nunes, e com a mineração que comeu o Pico do Cauê, e dou nome à condição contemporânea, uma escassez de figuras do todo que convive com a persistência do desejo de vê-lo e com as mediações com que a própria ciência a supre, de modo local e provisório. No lugar das máquinas antigas proponho uma figura mínima, uma curva que se aproxima de dois eixos sem tocá-los, e a posição que decorre de habitá-la, enquanto os poemas de Noemáfagos, escritos em par com a tese, fazem a mesma pergunta com outros meios.

Perguntas

De onde a poesia mostrou o mundo inteiro?

Nas três cenas da Máquina do Mundo, o lugar da visão desce do Empíreo de Dante ao monte de Camões e à estrada de Minas por onde passa o caminhante de Drummond, que leio à beira do Buraco do Cauê, em Itabira. Leio cada cena com a cosmologia e a língua do seu tempo, e com o que cada homem faz com o que vê.

Onde ler

  • “Dante e o Humanismo” Nuntius Antiquus, 2024
  • “Camões e a Máquina Legível” Anais do 21º ENECULT, 2025
  • “A Máquina no Buraco” Luso-Brazilian Review, no prelo

Tudo sobre esta pergunta, na Obra

O que resta da cena diante do universo?

Quando o mundo fechado dá lugar a um universo em expansão, a ciência passa a descrever com uma eficácia sem precedentes uma totalidade que nenhuma figura comum recolhe. Essa escassez alegórica convive com as alegorias técnicas da própria ciência, que tornam imagináveis partes do universo sem devolver uma imagem do todo.

Que figura pode ter hoje a totalidade?

No lugar das máquinas antigas, uma figura mínima, dois eixos e uma curva que se aproxima deles sem tocá-los, que orienta o saber sem se deixar converter em posse. É o horizonte assintótico, de que derivam os outros operadores da parte II da tese e cujo vocabulário os poemas de Noemáfagos partilham.

Onde ler

Tudo sobre esta pergunta, na Obra

Como habitar o limite?

Da figura decorre uma posição, o realismo assintótico, que reconhece a assimetria das posições diante de regimes locais de verificação e a simetria dos sujeitos diante da incompletude da totalidade. É o assunto da parte III da tese, ainda em redação.

Ao lado dessa pergunta corre uma linha lateral, a do tempo contemplativo e da sua passagem da poesia ao cinema, num artigo, “A tradição do tempo” (Rebeca, 2025), e em ensaios para o Bright Lights Film Journal.

Em par e em colaboração

  • Noemáfagos

    obra digital publicada em 2026 · livro em preparação

    Vinte e um poemas interativos escritos em par com a tese, que levam as mesmas questões à experimentação poética.

  • Glossário Poético da Cosmologia

    em preparação

    Verbetes em que a definição de um termo da cosmologia, o poema que a abona e a glosa científica de um físico, escrita em resposta ao poema, se encontram na mesma página.

  • “De Dante aos buracos negros”

    dossiê em preparação · Em Tese, UFMG

    Poéticas do ininteligível e a crise da representação da ciência contemporânea, dossiê que organiza na revista do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG.