Alegoria técnica e deslocamento da função poética na disputa contemporânea pela figuração do cosmos
Danilo de Athayde
7º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários (CIELLI), Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá · 9 a 12 de junho de 2026
Comunicação apresentada em congresso. O texto não foi publicado.
Resumo
Este trabalho propõe o conceito de alegoria técnica para designar o regime de mediações figurais por meio do qual a ciência contemporânea, sobretudo a cosmologia e a física teórica, torna comunicáveis modelos que excedem a intuição sensível ordinária. Parte-se da hipótese de que, diante da dificuldade atual de produzir imagens compartilháveis do todo, descompasso que se designa aqui como escassez alegórica, certas figuras científicas passam a exercer uma função antes atribuída à poesia, à filosofia e à teologia: a de dar forma sensível à totalidade. O conceito é distinguido tanto da noção de metáfora científica corrente nos estudos sociais da ciência quanto da chamada metáfora absoluta. O texto articula essa hipótese à tradição da Máquina do Mundo e ao diagnóstico de escassez alegórica, examinando, brevemente, três imagens de ampla circulação pública: a teia cósmica, a linha do tempo do universo e a “partícula como bolinha”. Defende-se, por fim, que a tarefa crítica da literatura não consiste em opor poesia e ciência, mas em reabrir, nas figuras contemporâneas do cosmos, a consciência de sua condição mediadora.
Palavras-chave Alegoria Técnica · Literatura e Ciência · Máquina do Mundo · Figuração do Cosmos · Poesia
Em linhas gerais
A comunicação examina três imagens de ampla circulação, a teia cósmica das simulações, a linha do tempo do universo e a partícula desenhada como uma bolinha, e chama de alegoria técnica o regime de mediações com que a ciência torna comunicáveis modelos que escapam à intuição. Essas figuras passaram a ocupar parte do lugar que antes cabia à poesia na figuração do todo, e à crítica literária cabe lembrar que são mediações.
Excerto
Como podemos imaginar o cosmos hoje? A pergunta parece simples, mas toca um impasse decisivo da cultura contemporânea. O conhecimento científico tornou-se cada vez mais preciso, ampliou a escala de seus objetos e refinou seus instrumentos formais, porém, ao mesmo tempo, tornou-se menos imediatamente disponível à intuição comum.